#BSB60 | Como seriam as "Brasílias" de outros urbanistas?

Em 1823, José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca da independência brasileira, já havia proposto a criação de uma nova capital do Brasil, situada no interior do país. E a cidade acaba de completar 60 anos.

Em setembro de 1956, a ideia de construir essa nova capital começou a se desenvolver, através da publicação do edital no Diário Oficial da União para o "Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil", conforme determinou o então presidente Juscelino Kubitschek. A cidade, que viria ser inaugurada quatro anos depois, hoje é Patrimônio Cultural da Humanidade. O edital encomendava um traçado básico da cidade, que deveria indicar a disposição dos principais elementos da estrutura urbana para a implantação de Brasília, prevendo 500 mil habitantes.


Além do projeto de Lúcio Costa, foram inscritos 25 projetos. As propostas que não saíram do papel foram registradas pelo professor e arquiteto Jeferson Tavares, no livro "Projetos para Brasília 1927-1957", um compilado lançado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Outro arquiteto que reuniu essas ideias foi Milton Braga, em seu livro “O Concurso de Brasília”.


O pódio:

Para o terceiro lugar, houve um empate entre o plano do grupo composto pelos arquitetos Rino Levi, Cerqueira Cesar e Carvalho Franco, e o grupo dos arquitetos MMM Roberto. Em segundo, ficou o grupo dos arquitetos Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes. O vencedor do concurso foi o arquiteto Lúcio Costa.



3º e 4º)Cidade vertical:

Levi, Cerqueira e Franco propuseram colocar a população de Brasília em gigantescos prédios que formariam grupos denominados superblocos. Cada superbloco funcionaria como uma cidade independente. Os superblocos possuiriam ruas internas com lojas comerciais, jardim de infância, creche e centro de saúde.

O superbloco era um grupo de 8 prédios; e os prédios, por sua vez, possuiriam 4 unidades de 20 andares sobrepostos; cada edifício deveria comportar 16 mil habitantes e teria 300 metros de altura, dos quais 10 metros seriam do térreo com pilotis.

Esse número de andares inviabilizou a proposta, por sua complexidade tecnológica. Para efeito de comparação, o prédio mais alto de Brasília é o Congresso Nacional, com 28 andares. O júri também considerou a concentração de pessoas desaconselhável.

Pode impressionar com um para que? A altura dos edifícios, dos superblocos. O planejamento é dirigido exatamente para condicionantes resolutivas prévias dos problemas da cidade comum, da cidade obsoleta.

(Levi, in Habitat nº 40/41, 1957, p.7).



3º e 4º) Cidade em círculos:

Os irmãos Roberto sugeriram uma cidade flexível em relação à quantidade de habitantes. O projeto tinha 7 estruturas circulares, e cada uma delas teria 72 mil habitantes, com plano expansível para 14 estruturas. Esses círculos também funcionariam como cidades independentes, com centro para serviços e comércio, além de parte da administração política. se expandir para até 14 dessas estruturas urbanas.

A ideia era que as pessoas sempre se locomovessem a pé e que a cidade fosse um grande parque federal. Seu caráter de cidade completamente definida, que indicava até o número de pessoas que trabalharia em cada local, fez com que o júri desaprovasse a proposta, por considerá-la como ausente de caráter metropolitano, ou seja, de uma inter-relação entre os blocos.

[...]No projeto de M.M.M. Roberto, porém a articulação espacial é descontínua, enquanto o sistema circulatório exige, para tornar-se fácil, a compartimentação. E assim as comunicações entre as unidades, as ligações de conjunto metropolitano, do núcleo central aos dos perímetros mais afastados, se fariam por adições e não por integração.

(Mário Pedrosa: Arquitetura: Ensaios Críticos. São Paulo: Cosac Naify, 2015. p. 208).



2º) Cidade rígida:

O projeto de Boruch Millmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes possuía um centro administrativo totalmente fechado, em uma pequena cidade. A população excedente e as demais atividades ficariam por conta das cidades-satélites, que estariam dispostas de forma linear em relação ao centro. Portanto, a cidade governamental teria crescimento controlado, enquanto os satélites urbanos possuiriam caráter de crescimento ilimitado.

A população total seria de 750 mil pessoas. A proposta de localização das habitações na península despertou a atenção do júri, que veio a considerar, no entanto, que as áreas não poderiam ser desenvolvidas com facilidade para o infinito, como era sugerido. Também foi colocada a ausência do uso das áreas mais elevadas do terreno, além da falta de desenvolvimento das vias em suas periferias.

Nas quadras estariam residências de variadas extensões. Em sua proposta havia um projeto modular de zona residencial industrial para as cidades-satélites, uma preocupação que poucos projetos tiveram. Milman justificou as áreas vazias como espaços que permitiriam as expansões futuras.

(Dilton Lopes de Almeida Júnior; Karine da Silva Souza. Para o site Cronologia do Urbanismo).



1º) Cidade-parque:


Lúcio Costa organizou a cidade pelo cruzamento de dois eixos, num formato de cruz. Um dos eixos, porém, foi arqueado para o escoamento das águas, pelo qual passa a malha rodoviária constituída de vias de alta velocidade. Ao longo do eixo reto, ocorre a ordenação dos setores de administração do governo. Há uma hierarquia viária bem definida, forte setorização, além de alturas restritas a 6 pavimentos sob pilotis no plano piloto.

Ele criou o conceito de superquadra, além de incorporar conceitos que existiam anteriormente, como o de cidade parque, com grandes áreas verdes no meio urbano. O arquiteto importou os cruzamentos em forma de “tesourinha” dos Estados Unidos.

Fato que chama a atenção é que a apresentação de Lúcio Costa consistia apenas em um desenho à mão do plano piloto e um relatório de 24 páginas, o mínimo exigido, ao passo que alguns projetos eram compostos por desenhos detalhados e mais de 200 páginas explicativas.

Eis o retrato da futura capital - uma série de grandes quadrados que, cercados de plantas, impediriam que ela, mesmo parcialmente construída, jamais lembrasse um deserto. Na realidade, o que iria ocorrer seria justamente o contrário. O deserto do cerrado seria por ela absorvido. Passaria a integrá-la, transformando em cenário para realçar-lhe, pelo contraste, o extraordinário arrojo da concepção urbanística. E tudo isso a mil quilômetros do litoral, localizado exatamente no centro geográfico de um país continente.

(KUBITSCHEK, Juscelino, Por Que Construí Brasília? Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1975).

Apesar de propostas muito diversificadas, desde abordagens ruralistas até atividades organizadas por horários, elas carregavam muito em comum: a maior parte delas usava um formato de cruz e eram orientadas pela mesma formação técnica, de abordagem modernista e racionalista.

A cidade que foi construída não foi totalmente fiel àquela apresentada no concurso, mesmo porque vários arquitetos viriam a trabalhar no desenvolvimento da ideia. Após construída, sua evolução vem misturando atividades, em contrapartida ao ideal setorizador de Lúcio Costa. O importante é que seja mantida a essência, sem esquecer-se de que uma cidade sempre é inacabada. Nas palavras de Milton Braga:

“Essa simplicidade de organização essencial é a chave para que ela possa se transformar sem perder o seu DNA”.

- Conta aí! Qual é a sua preferida?


Fontes:

http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1

http://www.cronologiadourbanismo.ufba.br/apresentacao.php?idVerbete=1598

http://cronologiadourbanismo.ufba.br/leituras.php?id_leitura=24

https://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/as-outras-brasilias-veja-como-seria-a-capital-dos-concorrentes-de-lucio-costa.ghtml

http://www.ebc.com.br/cultura/2015/04/7-brasilia-possiveis


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